RIO BRANCO (AC) – O tempo costuma ser um dos principais responsáveis por reavaliar decisões políticas e modelos de desenvolvimento. No Acre, um dos debates mais antigos envolvendo o futuro da economia rural voltou a ganhar destaque ao colocar novamente em evidência duas visões distintas para o estado: a defesa da expansão da produção agrícola, liderada por Tião Bocalom ao longo de sua trajetória política, e o modelo da Florestania, implementado durante os governos de Jorge Viana.
Há mais de 30 anos, Bocalom defendia que o crescimento econômico do Acre passava, necessariamente, pelo fortalecimento da agricultura e da produção rural. Na época, sua proposta era incentivar pequenos e médios produtores a investir em culturas como café, milho, arroz, feijão, soja e banana, criando condições para ampliar a geração de renda no campo, fortalecer a agricultura familiar e reduzir a dependência econômica dos agricultores em relação a programas assistenciais.
Embora tenha sustentado esse discurso durante décadas, a proposta enfrentou resistência em diferentes momentos da política acreana. Enquanto isso, os governos liderados por Jorge Viana adotaram uma estratégia voltada ao conceito da Florestania, política pública que priorizou a preservação ambiental, o manejo sustentável dos recursos naturais e a valorização da floresta como eixo do desenvolvimento regional.
O modelo recebeu reconhecimento nacional e internacional por sua agenda ambiental, mas também foi alvo de críticas de parte do setor produtivo, que apontava excesso de burocracia, dificuldades para abertura de novas áreas de produção e limitações impostas aos produtores rurais. Muitos agricultores defendiam que as restrições dificultavam a expansão da atividade agrícola e comprometiam o crescimento econômico de diversas comunidades do interior.
Agricultura ganha espaço no cenário estadual
Passadas três décadas, a agricultura voltou a ocupar posição de destaque na economia acreana. O crescimento da cafeicultura, aliado ao aumento dos investimentos em tecnologia, assistência técnica e melhoria genética das lavouras, tem ampliado a produtividade e despertado o interesse de produtores em diversas regiões do estado.
Nesse contexto, um fato chamou a atenção de observadores da política acreana: o próprio Jorge Viana passou a investir na produção de café, divulgando publicamente sua lavoura e apresentando amostras da produção durante eventos e encontros políticos.
Para apoiadores de Bocalom, esse movimento representa um reconhecimento, ainda que indireto, da importância da agricultura como alternativa para impulsionar a economia estadual. Eles lembram que o incentivo ao cultivo do café sempre esteve entre as principais bandeiras defendidas pelo atual prefeito de Rio Branco desde o início de sua carreira política.
Um debate que permanece atual
A discussão entre preservação ambiental e expansão da produção agrícola continua sendo um dos principais desafios para o Acre. Especialistas apontam que o desenvolvimento sustentável depende do equilíbrio entre conservação dos recursos naturais e fortalecimento das atividades econômicas, especialmente aquelas ligadas ao campo.
Nesse cenário, o debate iniciado há mais de 30 anos permanece atual e levanta uma reflexão sobre os caminhos adotados pelo estado ao longo das últimas décadas. Para defensores da expansão agrícola, políticas voltadas ao fortalecimento da produção poderiam ter acelerado o crescimento econômico e ampliado a geração de emprego e renda no meio rural.
Já defensores do modelo ambiental ressaltam que a preservação da floresta contribuiu para manter importantes ativos ambientais e consolidar o Acre como referência em políticas de conservação.
O tempo reabre a discussão
Independentemente das diferentes interpretações, a evolução da cafeicultura e o crescente interesse pela produção agrícola recolocam em pauta um tema que marcou a política acreana desde os anos 1990.
A trajetória de Tião Bocalom permanece associada à defesa da agricultura como motor do desenvolvimento regional, enquanto Jorge Viana continua identificado com políticas de preservação ambiental. Hoje, com ambos ligados, em diferentes contextos, ao fortalecimento da produção de café, o debate ganha novos contornos e reforça que as estratégias para o desenvolvimento do Acre seguem em constante transformação.
Assim, mais do que um embate entre dois líderes políticos, a discussão evidencia um desafio permanente do estado: encontrar o equilíbrio entre produção, sustentabilidade e crescimento econômico, conciliando a vocação agrícola do Acre com a conservação de seu patrimônio ambiental.