Bocalom e Jorge Viana: debate sobre modelos de desenvolvimento rural volta ao centro da discussão política no Acre

RIO BRANCO (AC) – O debate sobre os rumos do desenvolvimento econômico do Acre voltou a ganhar destaque no cenário político estadual, reacendendo uma discussão iniciada há mais de três décadas entre duas das principais lideranças políticas acreanas: o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PSDB), e o ex-governador e ex-senador Jorge Viana (PT). A divergência histórica gira em torno de dois modelos distintos de desenvolvimento para o estado: a ampliação da produção agropecuária como vetor de crescimento econômico e a priorização de políticas voltadas à conservação ambiental e ao uso sustentável da floresta.
Ao longo de sua trajetória política, Tião Bocalom construiu sua imagem pública como um dos principais defensores da expansão da produção agrícola no Acre. Desde a década de 1990, o gestor sustenta que a agricultura familiar e a produção em escala comercial representam os principais instrumentos para geração de emprego, renda e fortalecimento da economia regional.
Segundo essa linha de pensamento, o Acre possui condições naturais favoráveis para ampliar o cultivo de culturas como café, milho, arroz, feijão, banana, soja e outras commodities agrícolas, reduzindo a dependência de importação de alimentos e ampliando a capacidade de exportação do estado.

Divergência histórica

Durante o período em que Jorge Viana governou o Acre, foi implementado o conceito de Florestania, política pública que buscava conciliar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e valorização das populações tradicionais.
O modelo ganhou reconhecimento nacional e internacional por priorizar a conservação dos recursos naturais e incentivar atividades econômicas consideradas sustentáveis, como o manejo florestal, o extrativismo e projetos voltados à bioeconomia.
Entretanto, setores ligados ao agronegócio e à produção rural sempre apresentaram críticas ao modelo, argumentando que o excesso de regulamentações ambientais e burocráticas teria limitado a expansão da atividade agrícola, dificultando investimentos privados e reduzindo a competitividade do setor produtivo.
Nesse contexto, Bocalom tornou-se um dos principais críticos dessa política, defendendo maior incentivo à abertura de áreas produtivas legalizadas, assistência técnica aos produtores rurais e ampliação do crédito agrícola.

Produção agrícola como eixo econômico

Ao longo de aproximadamente 30 anos de atuação política, Bocalom manteve praticamente inalterado seu discurso em defesa da agricultura como base para o crescimento econômico do Acre.

Entre suas principais propostas sempre estiveram:

  • fortalecimento da agricultura familiar;
  • incentivo ao cultivo de café, milho, arroz, feijão, banana e soja;
  • mecanização agrícola;
  • ampliação da infraestrutura rural;
  • abertura e recuperação de ramais;
  • acesso ao crédito rural;
  • assistência técnica aos pequenos produtores.
Segundo essa visão, o fortalecimento da produção agrícola permitiria maior autonomia econômica às famílias rurais, incremento da arrecadação estadual, geração de empregos e aumento da competitividade do Acre no mercado nacional.

Cafeicultura ganha espaço

Nos últimos anos, a cafeicultura passou a ocupar posição de destaque entre as cadeias produtivas do estado, impulsionada pelo aumento da produtividade, pela adoção de novas tecnologias e pela valorização do café robusta amazônico.
Dentro desse contexto, Jorge Viana passou a divulgar publicamente sua atuação como produtor rural e o investimento em lavouras de café, participando de eventos e apresentando sua produção.
Esse movimento tem sido interpretado por parte do meio político como uma aproximação com um segmento econômico que, durante décadas, esteve no centro das críticas de adversários do modelo de desenvolvimento adotado nos governos petistas.

Debate permanece aberto

A retomada da discussão evidencia que o Acre continua debatendo qual estratégia oferece melhores condições para promover desenvolvimento econômico, geração de renda e preservação ambiental.
Especialistas apontam que, atualmente, o desafio consiste em conciliar o crescimento da produção agropecuária com o cumprimento da legislação ambiental, adotando práticas sustentáveis capazes de ampliar a competitividade do setor sem comprometer os recursos naturais.
Independentemente das interpretações políticas, a expansão da cafeicultura e o fortalecimento de outras cadeias produtivas recolocam a agricultura no centro da agenda econômica acreana, reacendendo um debate histórico sobre os diferentes modelos de desenvolvimento defendidos ao longo das últimas décadas.
A discussão entre Tião Bocalom e Jorge Viana, portanto, permanece como um dos capítulos mais emblemáticos da política acreana, refletindo visões distintas sobre o papel da produção rural, da conservação ambiental e das estratégias para impulsionar o desenvolvimento do estado.