Quase mil empresas do varejo entram em recuperação judicial em meio a juros altos, endividamento e mudança no consumo

O varejo brasileiro atravessa um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos. No segundo trimestre do ano passado, 819 empresas de diferentes portes ingressaram com pedidos de recuperação judicial. No mesmo período deste ano, o número chegou a 986, alta de aproximadamente 20%, evidenciando o avanço da pressão financeira sobre o setor.

Entre os casos recentes estão Casas Bahia e Marabrás, que recorreram à recuperação judicial diante do elevado volume de dívidas. Em maio, o Grupo Toque, proprietário das marcas Toque Stock e Mobley, também adotou o mecanismo. Em março, o Grupo Pão de Açúcar anunciou uma recuperação extrajudicial, modalidade que permite negociar previamente com credores antes da homologação judicial.

A recuperação judicial não significa necessariamente encerramento das atividades. O instrumento busca preservar empresas economicamente viáveis, permitindo a renegociação de passivos, a reorganização financeira e operacional e a continuidade das atividades, com o objetivo de evitar a falência.

Juros elevados e crédito restrito

Segundo especialistas, a concentração de dificuldades no varejo não pode ser explicada apenas por problemas específicos de gestão. Entre os fatores estruturais estão os efeitos da pandemia, a redução da atividade econômica, o elevado custo do crédito e a manutenção de juros elevados como instrumento de combate à inflação.

A política monetária restritiva afeta simultaneamente empresas e consumidores. Para as companhias, o crédito mais caro aumenta o custo do capital e dificulta a rolagem de dívidas. Para as famílias, encarece financiamentos e reduz a capacidade de aquisição de bens de maior valor.

Outro componente relevante é o endividamento das famílias. Com parcela significativa da renda comprometida com despesas essenciais e obrigações financeiras, produtos como televisores, geladeiras e fornos de micro-ondas deixam de ser prioridade. O consumo de bens duráveis e semiduráveis passa a ser adiado diante da necessidade de preservar recursos para a subsistência.

O economista Ricardo Meirelles avalia que a deterioração das contas públicas pode contribuir para pressionar a inflação e dificultar uma redução sustentável dos juros. Na avaliação apresentada, o reequilíbrio fiscal seria necessário para criar condições para que as taxas de juros retornem a níveis mais compatíveis com o funcionamento normal da economia.

Com juros menores, o impacto seria duplo: empresas poderiam reduzir o custo financeiro de suas dívidas e consumidores teriam acesso a crédito menos oneroso. Dessa forma, a recuperação da capacidade de consumo dependeria não apenas de medidas específicas para o varejo, mas também de um ambiente macroeconômico mais favorável.

Mudança estrutural no modelo de consumo

Além da conjuntura financeira, o varejo enfrenta uma transformação estrutural provocada pela mudança nos hábitos dos consumidores.

O modelo tradicional, baseado em grandes redes de lojas físicas e ampla estrutura imobiliária, perdeu parte de sua centralidade. A expansão do comércio eletrônico consolidou a possibilidade de comprar produtos sem deslocamento até os estabelecimentos comerciais.

A concorrência digital também ampliou a comparação de preços, condições de pagamento e variedade de produtos. As lojas físicas, por outro lado, preservam vantagens como a possibilidade de experimentar, testar e retirar determinados produtos imediatamente.

Nesse cenário, os varejistas tradicionais precisam combinar presença física e canais digitais, além de desenvolver experiências de compra capazes de justificar a preferência do consumidor por determinado estabelecimento.

Recuperação exige reestruturação

Para o economista Luiz Alexandre, a recuperação judicial pode representar, em determinadas situações, uma alternativa para empresas que enfrentam desequilíbrios financeiros, permitindo reorganizar suas operações e preservar sua participação no mercado.

A discussão ultrapassa a situação individual de cada empresa. Grandes redes varejistas possuem impacto relevante sobre cadeias de fornecedores, empregos, arrecadação tributária e circulação de renda. Por isso, a preservação de empresas viáveis também possui dimensão econômica e social.

O avanço dos pedidos de recuperação judicial, portanto, funciona como um sinal de alerta para o ambiente empresarial brasileiro. O varejo está pressionado simultaneamente por endividamento, crédito caro, menor capacidade de consumo, transformação tecnológica e mudança no comportamento do consumidor.

A superação desse quadro dependerá da capacidade das empresas de reestruturar custos, adaptar seus modelos de negócio e administrar o passivo, mas também de condições macroeconômicas que permitam reduzir o custo do dinheiro e recuperar gradualmente o poder de compra das famílias.

Em um cenário no qual quase mil empresas chegaram à recuperação judicial em apenas um trimestre, o desafio deixou de ser pontual e passou a representar uma questão relevante para toda a economia. Empresas financeiramente saudáveis significam manutenção de empregos, arrecadação, investimentos e continuidade das cadeias produtivas — elementos fundamentais para a retomada sustentável do crescimento brasileiro.