Dados divulgados nesta sexta-feira apontam uma deterioração preocupante do cenário de segurança alimentar no Brasil: cerca de 33 milhões de pessoas estariam passando fome, enquanto mais de 125 milhões enfrentariam algum grau de insegurança alimentar. Os números recolocam o país em um patamar comparável ao observado décadas atrás e reacendem o debate sobre a efetividade das políticas públicas de combate à fome.
A pesquisa evidencia que a insegurança alimentar deixou de ser um problema restrito a determinados grupos ou regiões e passou a atingir parcela expressiva da população. Em termos práticos, significa que milhões de famílias não têm garantia de acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes.
O levantamento também resgata o debate institucional sobre o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão de participação social voltado à formulação e ao acompanhamento de políticas públicas relacionadas à alimentação. O conselho foi extinto no início do governo Jair Bolsonaro, em 2019, e recriado posteriormente, em 2023, no terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, a cronologia é importante para evitar atribuir a extinção ao governo atual.
Vinte anos de governos do PT e a promessa de erradicar a fome
O cenário também alimenta críticas políticas ao histórico dos governos do Partido dos Trabalhadores. Ao assumir a Presidência pela primeira vez, Lula colocou o combate à fome entre as principais prioridades de seu governo, defendendo que sua missão estaria cumprida quando todos os brasileiros pudessem fazer as três refeições diárias.
Desde então, o país passou pelos governos Lula 1 e 2, Dilma Rousseff 1 e 2 — o segundo interrompido pelo impeachment — e novamente Lula 3. São aproximadamente duas décadas de predominância do PT no comando do governo federal, embora com períodos de interrupção e diferentes condições econômicas.
Nesse contexto, os números atuais provocam uma pergunta central: por que, apesar de décadas de programas sociais e políticas de transferência de renda, a fome e a insegurança alimentar continuam atingindo milhões de brasileiros?
A resposta, entretanto, exige análise técnica e não pode ser atribuída a um único governo. Inflação dos alimentos, desemprego, renda insuficiente, desigualdade, crises econômicas, custo de vida e eficiência das políticas públicas são fatores que influenciam diretamente a segurança alimentar.
Um problema que ultrapassa governos
O dado mais preocupante é a dimensão nacional do problema. A insegurança alimentar não significa necessariamente que todas essas pessoas estejam passando fome diariamente, mas indica dificuldade ou incerteza no acesso regular a alimentos.
Por isso, o desafio brasileiro vai além da distribuição emergencial de comida. Envolve geração de emprego e renda, redução da pobreza, estabilidade econômica, produção e abastecimento de alimentos, políticas sociais eficientes e capacidade do Estado de transformar recursos públicos em resultados concretos.
Os números divulgados recolocam a fome no centro do debate nacional e impõem uma cobrança que ultrapassa disputas partidárias: garantir que nenhum brasileiro seja obrigado a escolher entre alimentar a família e pagar despesas básicas. Afinal, décadas de programas e investimentos públicos deveriam produzir resultados mensuráveis na mesa da população.