Jornalista; Nésio Mendes Carvalho
O cenário político brasileiro expõe uma contradição que merece ser analisada pelos eleitores acreanos: enquanto determinados grupos políticos adotam, nos estados, um discurso de oposição ao governo federal, em Brasília seus partidos mantêm participação direta na estrutura administrativa do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre as principais siglas nessa composição estão MDB e PSD, partidos que integram a base de apoio do governo federal e comandam ministérios estratégicos. O PSD ocupa as pastas da Agricultura e Pecuária, com Carlos Fávaro; Minas e Energia, com Alexandre Silveira; e Pesca e Aquicultura, com André de Paula.
O MDB, por sua vez, comanda o Ministério do Planejamento e Orçamento, sob Simone Tebet; o Ministério dos Transportes, sob Renan Filho; e o Ministério das Cidades, sob Jader Filho.
O Republicanos também possui participação ministerial, com o Ministério de Portos e Aeroportos.
Já a federação formada por União Brasil e Progressistas (PP) anunciou, em setembro de 2025, o desembarque da base formal do governo federal. Antes da decisão, as duas legendas controlavam ministérios importantes, como Turismo, então ocupado por Celso Sabino, do União Brasil, e Esporte, então comandado por André Fufuca, do PP.
A contradição entre Brasília e os estados
É justamente nessa configuração que surge a questão política central: até que ponto o eleitor consegue identificar a verdadeira posição de cada partido?
Nos estados, integrantes dessas legendas podem apresentar-se como independentes ou até como oposição ao governo Lula. Em Brasília, entretanto, parte dessas mesmas estruturas partidárias participa da administração federal, ocupa ministérios e exerce influência sobre decisões econômicas, orçamentárias e regulatórias.
Isso não significa que todos os integrantes de um partido tenham necessariamente a mesma posição política. Mas evidencia a necessidade de o eleitor diferenciar discurso eleitoral, posição partidária e atuação efetiva no Congresso e no Executivo federal.
Economia, segurança jurídica e investimentos
O debate também alcança a economia. A trajetória fiscal brasileira, a carga tributária, a segurança jurídica e o ambiente regulatório são fatores que influenciam diretamente a capacidade do país de atrair investimentos e gerar empregos.
Para o Acre, essa discussão possui dimensão ainda maior. O Estado depende da expansão da produção agrícola, da infraestrutura, da integração regional, da atividade empresarial e da capacidade de atrair investimentos privados.
Nesse contexto, agricultores e empreendedores precisam de segurança jurídica, infraestrutura, acesso a crédito, tecnologia e previsibilidade regulatória, independentemente de posicionamentos ideológicos.
Qual é o verdadeiro posicionamento político no Acre?
A pergunta que se coloca para as próximas eleições não deveria ser apenas quem declara ser de direita ou de esquerda, mas também como cada candidato vota, quais alianças estabelece, quais interesses representa e qual modelo de administração pública defende.
O eleitor acreano precisa observar a atuação de seus representantes em Brasília e confrontá-la com o discurso apresentado no Estado.
Se determinado grupo afirma ser oposição ao governo federal, mas mantém alianças políticas, cargos ou apoio parlamentar à mesma estrutura que critica, cabe ao eleitor avaliar essa coerência.
O Acre precisa escolher sua direção
O desenvolvimento do Acre exige uma discussão política menos baseada em slogans e mais concentrada em resultados. Segurança pública, geração de empregos, infraestrutura, produção rural, liberdade econômica, educação e atração de investimentos precisam estar no centro da agenda estadual.
O setor produtivo rural, especialmente, necessita de políticas que ampliem sua capacidade de produção e comercialização, sem transformar questões econômicas em disputas exclusivamente ideológicas.
A grande questão para o eleitor acreano, portanto, é simples: qual projeto político pretende conduzir o Estado e quais alianças nacionais serão necessárias para executá-lo?
Mais do que discursos de oposição ou situação, o eleitor deverá analisar coerência, histórico, votações, alianças e resultados. É dessa leitura que poderá surgir uma nova bússola política para o Acre — uma direção capaz de conciliar desenvolvimento econômico, responsabilidade fiscal, segurança jurídica, produção, emprego e liberdade.
A política do Acre precisa ser conhecida também pelo que seus representantes fazem em Brasília, e não apenas pelo que dizem nos palanques estaduais.